
Maria Cecília Machado do Vale está há dez anos na equipe do Centro de Valorização da Mulher (Cevam). É ela quem gerencia o dia a dia da Casa Abrigo Nove Luas, onde moram 63 mulheres e 21 meninas vítimas de violência. Pedagoga, Maria Cecília começou a trabalhar quando a entidade ainda estava engatinhando e hoje, ao lado da presidente da casa, Dolly Soares, comanda com pulso firme a rotina da única casa de abrigo a mulheres em situação de risco no Centro-Oeste.
Como e sua rotina à frente da casa?
É uma loucura porque administramos recursos insuficientes para as nossas necessidades. Fazemos encaminhamento médico, profissional e psicológico, coordenamos a cozinha e a limpeza e ainda temos de dar conta da disciplina e da educação das meninas que vivem aqui. Somos a casa delas e temos os problemas de uma casa comum.
Qual o perfil das mulheres que procuram o Cevam?
As que estão abrigadas são vítimas de violência extrema. Estão muito debilitadas e sem nenhuma condição de se sustentar. Algumas vêm em busca de orientação, ajuda jurídica, outras aparecem para fazer doações, ajudar de alguma forma. Levam as meninas pro cinema, fazem trabalho voluntário. Muitas das voluntárias sofrem ou já sofreram algum tipo de violência.
Que mudanças vocês perceberam no dia a dia depois que a Lei Maria da Penha entrou em vigor?
A mulher ficou mais corajosa. Recebemos mais gente, recebemos mais denúncias. Percebemos que as vítimas estão buscando sair do ciclo de violência.
Como funciona este ciclo?
A violência começa com gritos e palavrões, passa para um empurrãozinho, tapas, surras e inúmeras vezes termina em morte. A vítima de violência deve sair disso o quanto antes.
De onde vêm os recursos para o Cevam?
Temos convênios com o Estado e com o município, mas nunca podemos contar com isto. O que sustenta o Cevam no dia a dia é a sociedade civil, com uma rede de voluntários e doações. Médicos, advogados, dentistas, professores e psicólogos prestam serviços gratuitos. Quando não temos nenhum tipo de alimento, a campainha toca e alguém nos deixa uma cesta básica na porta. Salva o almoço. (No momento em que conversava com O POPULAR, uma mulher deixou pacotes de pão na porta da casa).
Como funciona a rede nacional de apoio as mulheres?
Recebemos mulheres de outros Estados que precisam sair de seu meio para sobreviver. São mulheres de traficantes, por exemplo, que já sofreram todo tipo de abuso e estão ameaçadas de morte.
E as crianças que vivem aqui. Como vieram?
Há três anos, o estatuto do Cevam foi modificado para poder receber também meninas vítimas de violência. É uma tentativa de evitar uma situação pior no futuro. Temos 21 meninas que tiveram sua infância roubada. Aqui é a casa delas. Procuramos dar carinho, apoio, educação. Fazemos papel de mãe dessas meninas. Aqui matamos um leão a cada dia, mas voltamos fortalecidas para casa, com sensação de dever cumprido.
