CEVAN - Centro de Valorização da Mulher Consuelo Nasser

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CONSUELO NASSER

CONSUELO NASSER

A biografia da advogada e jornalista Consuelo Nasser é um resumo, quase um simbolismo, da tenacidade e do inconformismo da mulher brasileira que destoa dos jugos sociais e luta por sua carreira, por sua individualidade como ser humano.

 Antes de concluir o curso secundário no Liceu de Goiânia, onde se sentia sufocada, foi para o Rio de Janeiro, sozinha, com apenas 17 anos, prestar vestibular na Faculdade Nacional de Direito, classificando-se em sétimo lugar dentre mais de quatro mil candidatos.

 Apesar de contar com o apoio do tio Alfredo Nasser, seu pai de criação, e na época uma das figuras mais importantes da vida pública brasileira, senador, deputado federal, titular do DASP, Ministro da Justiça e Negócios Interiores, quando exerceu o posto do Primeiro Ministro durante uma visita do então premier Tancredo Neves ao exterior, Consuelo Nasser sempre recusou a encostar-se em emprego público para se manter nos estudos, preferindo trabalhar em entidades particulares, dentre elas a União Brasileira de Escritores, seção Rio, onde conviveu com nomes ilustres das letras nacionais como Peregrino Júnior, Eneida, Jorge Amado, Homero Homem, Carlos Drummond de Andrade e outros.

 Ao concluir o curso de Direito, quando se firmava também como atuante líder estudantil, Consuelo Nasser retornou a Goiânia, certamente atraída pelo atávico amor a sua terra. Novamente foram-lhe ofertados diversos empregos públicos, dentre eles o de Procurador Jurídico do Estado. Mais uma vez ela recusou. Ocorre que nessa ocasião grupos da UND conjuravam para forçar seu tio Alfredo Nasser a impedir que o Jornal Cinco de Março continuasse sendo impresso nas velhas oficinas do extinto Jornal de Notícias, com a finalidade única de fechar aquele semanário pertencente aos estudantes e que vergastava a corrupção no Estado, apontando, imparcialmente, os erros dos políticos tanto do PSD como da UDN.

 Foi no bojo dessa crise que Consuelo Nasser iniciou sua carreira fascinante de jornalista, assumindo o cargo de Redator-Chefe do Cinco de Março como estratégia para que cessassem as pressões que culminariam, fatalmente, com o fechamento de um jornal de lutas, limpo e corajoso. O episódio comoveu tanto a população goiana que os estudantes secundaristas decretaram greve geral, emitindo nota oficial de protestos, contra os grupos políticos que tramavam o fechamento do jornal.

 E foi como Redatora-chefe do jornal que Consuelo Nasser ficou conhecendo seu companheiro, jornalista Batista Custódio, diretor do Cinco de Março. Desde então os dois exerceram juntos o jornalismo, e é do conhecimento público de todo o Estado, que sem o talento fulgurante e a abnegação espartana de Consuelo, o Cinco de Março não teria se transformado numa legenda que se confunde com a própria história do Estado de Goiás.

 Presos e perseguidos após da Revolução de 64, os dois optaram por uma vida em comum, já que o jornalista Batista Custódio era desquitado numa terra de união indissolúvel. E juntos se refugiaram no interior do Estado, durante vários meses, e quando o Cinco de Março voltou a circular, em agosto de 1964, suas oficinas foram totalmente empasteladas por oficiais da Polícia Militar, por ordem do então chefe da Casa Militar do Palácio das Esmeraldas.

 Já em 1970, não fosse a presença de Consuelo Nasser, novamente teria sido fechado o jornal Cinco de Março, quando seu companheiro Batista Custódio esteve preso durante oito meses, por crime de opinião, e ela teve que assumir a direção do semanário da luta jurídica que se travou no Supremo Tribunal, pressionado pelo governo estadual a não conceder habeas corpus diante de uma prisão injusta e calcada em ódios e vinganças políticas.

 Mais recentemente, no governo passado, Consuelo Nasser voltou a evitar o fechamento do Cinco de Março, quando o Palácio das Esmeraldas montou um plano para estrangular econômica e financeiramente o bravo semanário e sua empresa gráfica, que lhe dava sustentação. Nessa ocasião, Consuelo surpreendeu a todos com uma nova face de seu talento, ao assumir o comando dos negócios das firma, praticamente falida, com filas de credores, centenas de títulos protestados, os salários dos funcionários atrasados vários meses, com o crédito cortado pelos fornecedores. Enquanto seu companheiro passou ao exclusivo comando do jornal, Consuelo conseguiu sanear as finanças e restabelecer o crédito da empresa, que figura hoje entre as mais florescentes e consolidadas do Estado. Tal foi o seu talento demonstrado, que figurou como a primeira mulher a conquistar em Goiás o título de Empresária do Ano, aliás, por duas vezes consecutivas.

 Graças à inteligência raiando à genialidade de Consuelo Nasser, seja como jornalista ou como administradora dinâmica, foi possível o surgimento do Diário da Manhã, que, em menos de dois anos, se tornou o jornal mais independente, altivo e conceituado da região. 

 Foi ao longo dessa sua vida de sofrimentos e de sucessos, como jornalista ou como empresária, que Consuelo Nasser sentiu na própria experiência a violenta discriminação imposta por nossa sociedade à mulher, tanto no mercado de trabalho, como na política ou na realização de seus valores intelectuais e artísticos, seja como simples figura humana. E isso mudou sua trajetória, a partir de 1980.

 Depois de ver consolidado o triunfo do Diário da Manhã, ela idealizou e fundou o Centro de Valorização da Mulher (CEVAM). E para se ter uma idéia de seu dinamismo, com menos de um ano de existência o CEVAM já possui sede própria, com telefone e plantão de assistência, já tendo encetado várias campanhas e vencido todas elas contra os até então impunes matadores de mulheres em Goiás.

 Embora vivendo maritalmente há 19 anos com Batista Custódio, Consuelo possui três filhos Julio Nasser, Fábio Nasser e Tânila Romana, e cria outros quatro Luciana, Mônica, Jorge e .., mas somente se casou no dia 12 de setembro ultimo (1981), numa cerimônia que se confundia com uma festa de todo o povo goiano. Afinal, pela primeira vez um casal goiano assumia publicamente o divórcio e o casamento legítimo numa lição de coragem.

 Contudo, Consuelo Nasser continua sua página de doação humana, não apenas aos trabalhos do CEVAM. Permanece atuante na direção das editoriais do Diário da Manhã e servindo de esteio à sua família. E de todas as lutas que se ofereceram em seu caminho, ela recusou apenas uma: o convite que lhe fez um partido político, recentemente, para candidatar a deputada federal ou senadora. Todavia, a sua recusa se fundamenta na sua compreensão de que é através do jornalismo e da  política social, de solidariedade e defesa dos direitos humanos, que ela mais poderá oferecer sua contribuição ao desenvolvimento cultural, social e econômico de sua terra.

                                             Biografia escrita e não concluída por Batista Custódio


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